quarta-feira, 10 de maio de 2017

Sobre estar só

Cosmic Sensations by Harumi Hironaka
  Me deixa te dizer uma coisa que ninguém nunca te contou: a solidão dá trabalho.  
   É cansativo cuidar de si mesmo. Dá trabalho ter que consolar a si próprio e dizer que vai ficar tudo bem. É cansativo ficar tentando entender os próprios sentimentos, analisar os próprios pensamentos e tentar encontrar uma resposta lógica e satisfatória para as próprias angústias. 
   Eu nunca na minha vida tive problema em andar por esse mundo sozinha. Nunca me incomodei em me sentar sozinha em um bar ou em um café, pedir um drink ou um belo chocolate quente e desfrutar da minha própria companhia enquanto observo o resto do mundo girar. Sempre gostei da liberdade e do poder de ser dona de mim. 
   Mas quando a gente se torna adulto logo descobre que alguns dias são piores do que outros - e a maioria deles podem ser bem difíceis. E é daí que entra o trabalho psicoemocional de se estar sozinho. Vai além de dizer a si mesmo para se levantar da cama e não se atrasar para o trabalho. Tem momentos em que chegamos ao ponto de precisar convencer a nós próprios de que somos importantes e não podemos desistir. 
   O maior problema de se estar sozinho é que existem momentos em que sentimos uma necessidade desesperadora de compartilhar nossos pensamentos, nossas ideias, nossas frustrações. Seres humanos são seres sociais, crescemos acostumados a chorar e correr para os braços das nossas mães sempre que alguma coisa dava errado. 
   Contudo, o que fazer quando se é adulto e o colo da mamãe não é mais uma opção? Por que, sim, eu quero chorar nos braços de alguém e dizer tudo o que anda me angustiando. Quero alguém secando minhas lágrimas e dizendo que vai ficar tudo bem, com tapinhas desajeitados nas minhas costas e a promessa de uma xícara de chá. 
   Posso pensar em algumas pessoas que poderiam fazer isso. Pessoas importantes, queridas, que se importam. Mas mesmo com o celular a alguns centímetros de distância, eu não consigo chamá-las. Não é orgulho, é apenas uma sensação estranha de que preciso de alguém que me conforte sem que eu tenha que pedir. 
   Como ninguém pode ler meus pensamentos, e a única pessoa que me resta, fatalmente, sou eu mesma. O que acaba sendo o suficiente na maioria das vezes - mas não sempre. Porque em algumas ocasiões, minha parte equilibrada e sensata também se perde para a solidão. 
   Mas eu estou aprendendo a lidar comigo. Estou me acostumando a ser sozinha nos momentos bons e nos ruins também. Dá trabalho, mas não tenho escolha se eu realmente quiser me tornar emocionalmente autossuficiente. 
   O que não posso permitir é que eu continue - vez o outra - a ser cruel comigo mesma. Porque, convenhamos, tenho um talento natural para a crueldade.

terça-feira, 28 de fevereiro de 2017

Bruxas não morrem

Arte de Detention To Detail
Está na hora de você entender o significado do seu legado.
Devore seu próprio coração. Só assim ele continuará dentro de você, só que sob controle. Seja uma dama selvagem. Seja doce e cruel.
Bruxas não morrem. Elas apenas queimam e ficam esperando pela segunda rodada. No inferno, às vezes. Esperando pela hora mais oportuna para retornar. E enquanto isso elas escutam seus passos. Elas sussurram os segredos pra você.
Elas querem que você abra a porta para elas.
Você vai obedecer?
Sua alma vai ficando mais escura a cada dose.
Era uma poção. Era veneno. Não faz mais diferença.
Na madrugada, os todos os fantasmas podem ser ouvidos.
E eles dizem através dos seus pesadelos, o que você demorou muito tempo para perceber: é hora de encarar o seu lado mais sombrio.

sábado, 7 de janeiro de 2017

#MeuCalderião: Livro "Angélica"

Lygia Bojunga é aquele tipo de escritora que escreve livros para crianças, mas que na verdade ensinam lições valiosas para todas as idades.
Recentemente, tive o prazer de reler Angélica, um livro que devo ter lido pela primeira vez lá pelos meus 10 anos. E, devo confessar, me surpreendi.
A história é fofa, o enredo é simples mas a crítica social é FERRADA. Claro que eu não tinha consciência disso quando estava na quarta série, mas agora tenho e, uau, minha admiração por essa escritora só aumentou.

“Quando você não quer mais ser o que você é – dá pra mudar de pele?
Quando você não se conforma com o jeito que a sua família vive – dá pra mudar o jeito?
E quando você não arranja emprego – dá pra inventar um?
Se você tem que vender um pedaço de você mesmo pra sobreviver – dá pra ficar de bom humor?”

quarta-feira, 4 de janeiro de 2017

Vampirismo


Desperto com o pôr-do-sol e vou me erguendo com as sombras, com o frio, com os sintomas noturnos agudos e crônicos.
Do meu túmulo, onde a terra ainda é fresca e o tempo parou, minha pele morta e jamais envelhecida vence as leis da ciência e me ergo como uma figura do romantismo não romântico, gótico.
Tem terra debaixo das minhas unhas, e eu não entendo as coisas direito. Mesmo na minha palidez fantasmagórica e com o meu cheiro de sepultura apodrecida,  ainda há pessoas que me vêm como uma amante digna de promessas e encontros secretos, dos quais eu saio satisfeita e eles saem cadáveres.
Não há paixão no sangue. Há apenas dor, perda e muita sede. No cemitério em que habito, existem outros como eu, que perseguem as pessoas de sangue quente e corações tristes que vagam pela madrugada.

domingo, 1 de janeiro de 2017

Eu sou Alice


Agora que eu cheguei ao fundo do poço mais uma vez e minhas lágrimas são tudo o que me cercam – eu não deveria ter chorado tanto - tento encontrar um culpado para o meu atual estado de passiva contemplação.
Eles me dizem que a culpa são das drogas, mas não é verdade. A loucura começou antes dos doces e do chá. Eu caio, eu caio, eu caio e continuo caindo enquanto as pessoas continuam assistindo. Um circo, uma blasfêmia.

sexta-feira, 14 de outubro de 2016

#MeuCaldeirão: Especial Halloween - 5 Livros de Bruxas


Estamos em outubro, o mágico mês das bruxas e de outras criaturas místicas. Muito além das festas de Halloween americanas, o mês é marcado por rituais e crenças muito antigas.
Essa atmosfera mágica sempre me fascinou, desde a infância. Adoro assistir aos filmes de terror que passam na TV nessa época do ano, ler e escutar histórias de arrepiar os pelos da nuca e (não vou negar) amo ver as lojas de artigos para festas e fantasias decoradas com abóboras e morcegos.
Minha relação com a literatura não é diferente. O gótico, a fantasia e o terror são os meus gêneros literários favoritos. Por isso decidi não deixar esse mês passar em branco aqui no blog, e irei recomendar alguns livros que têm tudo haver com o Halloween, começando por cinco ótimos livros de bruxas. Afinal, outubro é nosso!

sábado, 16 de julho de 2016

SANGRE

Não, não existe inspiração no prazer, apenas na dor. Um lugar tão horrível e atormentador de arte e frio como as minhas mãos sem luva no inverno - a única época em que meu coração fica quente como o inferno.
Eu vou colhendo as palavras ou elas são enviadas até mim de algum ponto distante do universo aonde a chama permanece acesa pelos poetas mortos.
Eu e a minha mania estúpida de tentar dizer alguma coisa quando, na verdade, não devo ter absolutamente nada para expor, nada que seja útil para alguém além de mim mesma que sente essa necessidade angustiante de escrever escrever escrever e molhar o teclado com lágrimas que nem parecem que são minhas.
Eu me transformei em algum tipo de vampira literária não literal caçadora predadora procurando em letrinhas miúdas alguma coisa que chegue perto de ser literatura para chamar de minha e quando não consigo encontrar eu me arrasto por aí fugindo do sol e me encolhendo nas sombras e sentindo meu coração acelerar em um ataque de pânico e minhas mãos tremerem como se a morte estivesse tentando me beijar me bater me despedaçar.
Eu começo a rodar no meio de ideias que não se encaixam como uma nefasta bailarina fantasma incapaz de respirar sentindo o peito se apertando e tudo girando até começar a cair e gritar e desejar mais ideias para sangrar.
Eu achava que escrever era um dom, mas agora eu sei.
É uma maldição.

quinta-feira, 21 de abril de 2016

SEREIA

Ela morava na areia e suas novas pernas coçaram quando ela se levantou pela primeira vez, sentindo-se o serzinho mais desajeitado do mundo e como tudo era pesado, cada membro, braço...
E seus primeiros passos foram na direção oposta do mar que rugia através dela tentando avisar: querida, você vai se ferrar.
Ela se olhou no espelho toda nua e se despiu mais ainda pra poder se conhecer. Achou as pernas muito tortas, muito compridas, gostou dos segredos guardados no meio delas.
Desenrolou os cabelos que pareciam fios infinitos e como conchas contavam histórias ao som de ondas. O cabelo era ondulado como o oceano.
Não entendeu porque as pessoas usavam calças e saiu descalça. Gostou dos shorts. Gostou dos jeans.
Naquela noite foi a uma festa e se embriagou pela primeira vez sem beber nada. Saiu tropeçando bêbada com o suor, o calor dos corpos, a vida na respiração das pessoas.
Chorou quando se lembrou da solidão aterradora que o fundo do oceano proporcionava e como era frio lá no escuro, aonde o sol não chegava.
Tomou uma chuva tão pesada que machucava e quando colocou a língua pra fora descobriu que a água era doce e por um único e incomparável instante se sentiu diante de uma coisa mágica e absurda demais para acreditar mesmo em seus sonhos mais naufragados mais iludidos e nas mais fantásticas e fanáticas fodidas fantasias de sereia.
Não olhava para os peixes mortos quando ia ao mercado com medo de ver uma antiga amiga ou irmã sepultada sem honra no meio do gelo.
Foi beijada, foi tocada e fez tudo o que queria quando encontrou homens mortais que não eram ruins.
O amor era bom, mas a arte era melhor. A arte era mais paixão e mais tesão do que qualquer outra coisa e ela sentia muito medo de não conseguir entender uma coisa tão complexa e tão simples ao mesmo tempo.
Sem arte suas pernas eram inúteis e seus pedaços que ainda eram peixe não tinham mais expressão do que um atum enlatado.
Às vezes ela lambia o próprio braço só para sentir o gosto salgado de mar e ficava imaginando se era mística, mitológica ou apenas uma puta esquizofrênica vivendo uma realidade do avesso em uma dimensão aonde sereias só cantavam desgraças para marinheiros no coração frio do mar.
E de todas as artes a poesia era a melhor porque era o único lugar em que ela era bonita sendo tão errada e era completa mesmo toda fodida e despedaçada.
E as ideias se debatiam em sua cabeça como um peixe retirado da água, e as dores do seu coração eram aguadas.
Ela decidiu voltar pro mar porque nenhum lugar pode ser tão poético quanto o oceano tão vivo e morto, terrível, misterioso, gelado com vida por toda a parte, solitário, muitas criaturas juntas sozinhas.
Ela deixou as pernas na areia e quando viu os membros caídos os achou bem poesia, então prosseguiu. Suas escamas gritaram de felicidade quando encontraram as primeiras ondas e seus cabelos flutuavam ao seu redor como uma nuvem de fios fantasmas.
A sereia voltou pro mar, mas não se despediu de nada.
Ela era como um poema e como a espuma das ondas que se desintegram e não se entregam toda hora em uma eternidade infinita.

sexta-feira, 1 de abril de 2016

#MeuCaldeirão: Livros com fortes protagonistas femininas


Elas foram deixadas de lado por muito tempo. Apareciam na literatura clássica apenas como princesas ou donzelas em perigo que conquistavam o coração do protagonista. Sempre belas, inocentes e frágeis.
Mas, felizmente, como o papel das mulheres na sociedade vem se transformando através dos séculos, a arte tratou de acompanhar essa evolução, e a cada dia que passa, novas heroínas célebres surgem no mundo literário.
A seguir, cinco livros no qual a personalidade, força e capacidade das protagonistas femininas se destacam.

terça-feira, 1 de março de 2016

#MeuCaldeirão: 5 Livros incríveis que contam Histórias de Mulheres Reais

Nos próximos dias vamos ouvir falar muito sobre o Dia Internacional da Mulher, o significado da data e milhares de simbologias e definições sobre o que significa ser, afinal, uma pessoa do gênero feminino.
Longe de querer desmerecer a data (embora discorde com as atribuições que muitas vezes a mídia confere à ela), preparei um post indicando cinco livros muito bons que contam histórias de vida de mulheres de diferentes idades, épocas e nacionalidades.
Sei que essa lista está longe de representar todas as mulheres do mundo, mas esses livros, além de ótimas leituras, são uma forma de conhecer um pouco da realidade de meninas e mulheres muito diferentes de nós.
Com vocês, cinco mulheres incríveis e suas histórias.